Bets no Brasil: o que acontece com a renda das famílias quando o dinheiro volta a circular na economia?
Política Fiscal
Emilly Santos (LABEA\UFPA)
10/8/20263 min read
Bets no Brasil: o que acontece com a renda das famílias quando o dinheiro volta a circular na economia?
Emilly Santos (LABEA\UFPA)
Nos últimos anos, as bets deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a ocupar espaço na vida financeira de milhões de brasileiros. As apostas esportivas e os jogos on-line passaram a disputar uma parcela da renda das famílias, recursos que poderiam atender outras necessidades. As apostas de quota fixa foram regulamentadas no país, mas esse cenário mudou em 25 de setembro de 2026, quando a Medida Provisória nº 1.394 proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade dessa modalidade em todo o território nacional. Com o encerramento das operações autorizadas, surge uma questão econômica: o que acontece com a renda que antes era direcionada às apostas?
Esse debate ganha ainda mais relevância quando se observa o perfil de parte dos apostadores. Em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$3 bilhões para empresas de apostas por meio do Pix.E essa relação com o Bolsa Família também retoma a discussão sobre a circulação da renda e o papel das transferências na economia, apresentada anteriormente em nosso conteúdo (SANTOS, 2026). O dado chama atenção porque mostra que as apostas também estavam presentes entre famílias com orçamento mais restrito, tornando importante observar o destino que a renda assume dentro desses domicílios.
É nesse ponto que a macroeconomia amplia a discussão. Na perspectiva keynesiana, o consumo das famílias é um dos componentes da demanda agregada, pois, quando a renda é utilizada na compra de bens e serviços, esse gasto gera receita para empresas e trabalhadores e pode provocar novas rodadas de atividade econômica, a partir dessa dinâmica, o destino da renda das famílias pode produzir efeitos que ultrapassam o orçamento doméstico. Segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Confaz em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, houve uma transferência líquida de aproximadamente R$62,5 bilhões das famílias para as plataformas de apostas em 2025. Em estudo mais recente, o Made/USP estimou que as bets retiraram entre R$117 bilhões e R$141 bilhões das demais atividades econômicas, o equivalente a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB, considerando os efeitos da redução do consumo e do multiplicador.
Antes da proibição, o fluxo de recursos destinado às apostas também apresentava uma dimensão significativa. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a movimentação diária para as casas de apostas girava em torno de R$ 600 milhões por dia, valor que deixou de circular nesse sentido após a entrada em vigor da medida, sendo que, na primeira semana de fiscalização, o volume de recursos mantidos nas plataformas já havia caído 30,99%, uma redução de R$ 652,6 milhões. A mudança, portanto, não representa apenas o encerramento das plataformas autorizadas, mas uma alteração no percurso de uma parcela relevante dos recursos das famílias.
Por fim, esse cenário posterior à proibição já apresenta um dado concreto sobre os recursos que permaneciam nas plataformas. Em 6 de outubro de 2026, cerca de R$1,325 bilhão ainda aguardava a devolução a aproximadamente 26,5 milhões de apostadores, com os bancos responsáveis pela restituição entre 9 e 14 de outubro. A partir desse momento, os recursos poderão assumir novos destinos dentro das decisões financeiras das famílias e parte deles pode ajudar na reorganização do orçamento e na redução do endividamento, enquanto outra parcela pode voltar a circular por diferentes setores da economia. Dessa forma, a proibição das bets cria uma mudança econômica cujo alcance ainda será observado nos próximos dados: não se trata apenas de retirar as apostas do mercado, mas de acompanhar como essa renda passa a participar novamente da economia brasileira.
Referências:
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Estudo Especial nº 119. Brasília, DF, 2024. Disponível em: Banco Central do Brasil
BRASIL. Câmara dos Deputados. Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026: publicação original. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Câmara dos Deputados – publicação original
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Governo Federal amplia fiscalização contra bets ilegais. Brasília, DF, 2 out. 2026. Disponível em: Ministério da Justiça e Segurança Pública
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Bets fora do ar: plataformas cumprem determinação e encerram apostas no Brasil. Brasília, DF, 6 out. 2026. Disponível em: Ministério da Justiça e Segurança Pública
COMSEFAZ; CICEF. Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros: 3ª edição – update. 2026. Disponível em: Comsefaz – Boletim Fiscal dos Estados
KLEIN, Guilherme. O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade. Made/FEA-USP, 24 ago. 2026. Atualizado em 30 set. 2026. Disponível em: Made/FEA-USP
SANTOS, Emilly Sofia Ferreira. Bolsa Família aumenta a dívida pública? Entenda como o gasto social entra nas contas do governo. LABEA – Laboratório de Economia Aplicada, UFPA, 2026. Disponível em: LABEA – conteúdo anterior
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