Mercado de trabalho aquecido e o debate sobre o pleno emprego no Brasil
Emprego
Alcilene Farias (LABEA\UFPA)
10/6/20264 min read
Mercado de trabalho aquecido e o debate sobre o pleno emprego no Brasil
Alcilene Farias (LABEA\UFPA)
Em janeiro de 2026, o IBGE publicou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), segundo a qual a taxa anual de desocupação foi de 5,6% em 2025, o menor índice da série histórica iniciada em 2012. A população desocupada totalizou 6,2 milhões de pessoas em 2025, uma queda de cerca de 1,0 milhão (-14,5%) em relação a 2024, quando esse número era de 7,2 milhões. A população ocupada, por sua vez, chegou a 103 milhões de pessoas, ficando 1,7% acima do registrado em 2024 (IBGE, 2026). O cenário chama a atenção, pois os resultados mostram uma mudança importante no mercado de trabalho, o que despertou o interesse em discussões sobre se uma taxa de desemprego historicamente baixa seria suficiente para afirmar que uma economia alcançou o pleno emprego.
Pleno emprego e Teoria econômica
Do ponto de vista das teorias econômicas, o conceito de pleno emprego não possui uma única interpretação, sendo abordado por diferentes autores e correntes do pensamento econômico. De acordo com Welle et al. (2025), na perspectiva neoclássica, ele está associado ao equilíbrio entre oferta e demanda de trabalho, de modo que aqueles dispostos a trabalhar pelo salário vigente encontram ocupação. Keynes questiona essa interpretação ao mostrar que pode existir desemprego involuntário, quando pessoas desejam trabalhar nas condições vigentes, mas não conseguem encontrar emprego. Para Keynes, o nível de emprego não depende apenas das condições do mercado de trabalho, mas também das decisões de produção das empresas, influenciadas por suas expectativas quanto à demanda efetiva. Dessa forma, uma economia pode alcançar um equilíbrio mesmo com a existência de desemprego involuntário.
A partir dessa discussão, a Curva de Phillips amplia o debate ao relacionar as condições do mercado de trabalho ao comportamento dos salários. Originalmente, Phillips identificou uma relação entre a taxa de desemprego e o crescimento dos salários nominais, ou seja, quanto menor o desemprego e maior a utilização da força de trabalho, maiores tendem a ser as pressões sobre os salários (Welle et al., 2025). Posteriormente, Samuelson e Solow utilizaram essa relação para discutir a existência de um possível trade off entre desemprego e inflação, associando níveis menores de desemprego a maiores pressões inflacionárias (Welle et al., 2025).
Essa interpretação foi posteriormente questionada por Friedman, que argumentou que o trade-off entre inflação e desemprego não seria permanente. Surge, então, a ideia de uma taxa natural de desemprego, posteriormente associada à NAIRU (non-accelerating inflation rate of unemployment), entendida como o nível de desemprego compatível com uma inflação que não esteja se acelerando. Nessa perspectiva, portanto, o pleno emprego não corresponde à ausência de desemprego, mas ao nível de emprego associado ao equilíbrio do mercado de trabalho e à estabilidade da inflação (Welle et al., 2025).
Outra perspectiva apresentada no debate parte do conflito distributivo. Para Lavoie (2024 apud Welle et al., 2025), trabalhadores e capitalistas disputam a distribuição da renda, e o nível de emprego influencia o poder de barganha dos trabalhadores. Quando o desemprego diminui, esse poder pode aumentar, favorecendo pressões por maiores salários. Assim, aumentos salariais não dependem necessariamente de uma situação de escassez absoluta de trabalhadores, podendo também resultar do fortalecimento do poder de negociação dos mesmos. Kalecki também chama atenção para os conflitos políticos e sociais associados à manutenção de níveis elevados de emprego, uma vez que trabalhadores mais empregados possuem maior poder de barganha e capacidade de reivindicação (Welle et al., 2025).
Então, o Brasil está em pleno emprego?
A realidade dos países latino-americanos apresenta características distintas das economias desenvolvidas, especialmente pela heterogeneidade estrutural do mercado de trabalho e pela coexistência de diferentes formas de inserção ocupacional (Mattos e Lima, 2015). Nesse contexto, a análise do emprego não deve considerar apenas o desemprego aberto, mas também situações de subutilização da força de trabalho e a relação entre os setores formal e informal.
A questão a ser observada aqui é que uma baixa taxa de desemprego não é, por si só, suficiente para caracterizar uma situação de pleno emprego. A análise precisa considerar em que medida a força de trabalho está sendo efetivamente utilizada e quais condições sustentam o nível de emprego observado. No caso brasileiro, essa discussão ganha ainda mais relevância diante da heterogeneidade do mercado de trabalho e das diferentes formas de subutilização da força de trabalho.
Os dados divulgados pelo IBGE (2026), mostram que a economia brasileira apresenta um mercado de trabalho mais aquecido, marcado simultaneamente, pela redução do desemprego, pelo aumento da ocupação e pela diminuição da subutilização, mas também pela permanência de diferentes formas de inserção no mercado de trabalho. Diante disso, a questão sobre o pleno emprego não depende apenas de observar se a taxa de desocupação atingiu seu menor nível histórico, mas de quais indicadores e critérios são considerados para defini-lo.
Referências
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6%, enquanto taxa de subutilização foi 14,5%. Agência de Notícias IBGE, Rio de Janeiro, 30 jan. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759-pnad-continua-em-2025-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-5-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-14-5. Acesso em: 06 out. 2026.
WELLE, Arthur; BALTAR, Carolina Trancoso; PROENÇA, Guilherme Mascaretti; MANZANO, Marcelo. Pleno emprego: entre a teoria e a realidade brasileira. São Paulo: Friedrich-Ebert-Stiftung, dez. 2025. Disponível em: https://pesquisa.ie.unicamp.br/cesit/artigos-academicos/pleno-emprego-entre-a-teoria-e-a-realidade-brasileira/. Acesso em: 06 out. 2026.
MATTOS, Fernando Augusto Mansor de; LIMA, Sergiany da Silva. Apontamentos para o debate sobre o pleno emprego no Brasil. Economia e Sociedade, Campinas, v. 24, n. 2 (54), p. 293-328, ago. 2015. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ecos/article/view/8642082/9573. Acesso em: 06 out. 2026.
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