Juros altos e desaceleração da economia: como a política monetária afeta o crescimento?

Política Monetária

Andressa Lima (LABEA/UFPA)

10/14/20265 min read

Os efeitos da política monetária não aparecem apenas na inflação. Quando o Banco Central altera a taxa Selic, essa decisão se espalha pela economia e influencia o crédito, o consumo, os investimentos e, consequentemente, o ritmo da atividade econômica. Esse processo é conhecido como mecanismo de transmissão da política monetária. Segundo o Banco Central, as mudanças na Selic chegam à economia por diferentes canais, entre eles as decisões de consumo e investimento, o crédito, a taxa de câmbio, o preço dos ativos e as expectativas.

No cenário atual, a manutenção dos juros em patamar elevado está relacionada principalmente ao esforço do Banco Central para levar a inflação de volta à meta. Apesar da desaceleração recente dos preços, a inflação ainda permanece acima da meta de 3% e as expectativas para os próximos anos continuam sendo motivo de atenção. Por isso, mesmo após iniciar a redução da Selic, o Copom mantém a política monetária em nível restritivo, buscando conter a demanda e contribuir para o processo de desinflação.

Os dados recentes mostram que parte dos efeitos dessa política já pode ser observada na atividade econômica. De acordo com o Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de avançar 1,1% no trimestre anterior. Também houve desaceleração dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico e queda no consumo das famílias. O Banco Central avalia que esse movimento faz parte de uma perda de dinamismo observada desde o final de 2024, quando teve início o ciclo de aperto monetário. A projeção de crescimento do PIB para 2026 foi reduzida de 2% para 1,8%, enquanto a estimativa para 2027 é de 1,4%.

Uma das formas mais diretas pelas quais os juros afetam a atividade econômica é o crédito. Quando a Selic permanece elevada, empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros. Para as famílias, isso pode levar ao adiamento de compras financiadas ou à redução de alguns gastos. Para as empresas, o custo maior do crédito pode dificultar a compra de máquinas, a ampliação da produção ou a realização de novos projetos. A Ata do Copom de setembro já aponta desaceleração do crédito bancário com recursos livres, especialmente nas modalidades de prazo mais longo, que costumam ser mais sensíveis às mudanças nos juros.

A abordagem pós-keynesiana amplia essa explicação ao mostrar que a disponibilidade de crédito também depende das decisões dos próprios bancos. Quaresma Junior, Alencar e Andrade (2019) destacam que essas instituições consideram suas expectativas sobre a economia e os riscos associados à concessão de empréstimos. Em cenários de maior incerteza, podem adotar uma postura mais cautelosa, preferindo ativos mais líquidos e restringindo parte do crédito para famílias e empresas. Assim, além de ficar mais caro, o financiamento também pode se tornar mais difícil de obter.

Esse processo é particularmente importante para as empresas que dependem de financiamento para capital de giro ou para realizar investimentos. Os autores destacam que a redução da oferta de crédito pode levar ao adiamento de investimentos e dificultar a manutenção ou expansão das atividades de empresas que dependem desses recursos.

Os juros também influenciam o investimento por meio do custo do capital. Como mostram Oreiro et al. (2012), quando a taxa básica de juros é alta, fica mais caro financiar um projeto e também sobe o custo de oportunidade de investir — afinal, o empresário compara o retorno esperado do investimento com o rendimento de aplicações financeiras mais seguras. Assim, o novo projeto precisa prometer um retorno maior para valer a pena. Se isso não acontece, a empresa tende a adiar a compra de máquinas, a ampliação da capacidade produtiva ou outros investimentos.

Com menor consumo e menor investimento, a demanda por bens e serviços tende a perder força. Esse movimento faz parte do próprio funcionamento da política monetária. O Copom considera que a desaceleração da demanda agregada contribui para reequilibrar oferta e demanda e favorecer a convergência da inflação para a meta. Em setembro, o Comitê também avaliou que os efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade econômica vinham se acumulando gradualmente.

Dessa forma, a desaceleração da economia não aparece apenas como uma consequência paralela dos juros elevados. Ela faz parte do mecanismo pelo qual a política monetária procura reduzir pressões inflacionárias. Uma demanda menos aquecida tende a diminuir o espaço para novos aumentos de preços, mas também pode reduzir vendas, investimentos e o ritmo de expansão da produção.

Pereira, Alencar e D’Amato (2022) acrescentam outro elemento importante a essa discussão. Na perspectiva pós-keynesiana, as decisões de investimento também dependem das expectativas e do grau de incerteza em relação ao futuro. Quando a confiança diminui, empresas podem adiar projetos e preferir manter recursos em formas mais líquidas. Esse comportamento pode limitar a expansão da produção e, por consequência, afetar renda e emprego.

Vale ressaltar que a desaceleração da atividade econômica não depende apenas da Selic. O crescimento também é influenciado pelo cenário externo, pela política fiscal, pela produtividade, pelas condições de crédito e pelas expectativas. Além disso, os efeitos dos juros não aparecem imediatamente e podem variar conforme o contexto econômico.

Assim, a política monetária restritiva busca reduzir a inflação por meio de uma demanda menos aquecida, mas seus efeitos alcançam também o crédito, o consumo, os investimentos e a produção. A perspectiva pós-keynesiana amplia essa análise ao mostrar que o comportamento de empresas e bancos também depende das expectativas, da incerteza e das condições de financiamento. Compreender esses mecanismos ajuda a perceber por que as decisões sobre a Selic influenciam não apenas os preços, mas também o ritmo de crescimento da economia.

Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Ata da 281ª Reunião do Comitê de Política Monetária — Copom. Brasília, 15 e 16 set. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária. Brasília, v. 2, n. 3, set. 2026.

OREIRO, José Luís; PAULA, Luiz Fernando de; SILVA, Guilherme Jonas Costa da; AMARAL, Rafael Quevedo do. Por que as taxas de juros são tão elevadas no Brasil? Uma avaliação empírica. Revista de Economia Política, v. 32, n. 4, p. 557-579, 2012.

PEREIRA, Wallace Marcelino; ALENCAR, Douglas Alcântara; D’AMATO, Stefan Wilson. Incerteza, expectativas e convenções em política econômica: uma abordagem pós-keynesiana. Revista de Economia Mackenzie, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 301-326, 2022.

QUARESMA JUNIOR, Hélio de Souza; ALENCAR, Douglas Alcântara; ANDRADE, Wanderlino Demetrio Castro de. Preferência pela liquidez dos bancos no Brasil e crise: uma análise dos determinantes da oferta de crédito. Revista de Economia Mackenzie, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 75-96, 2019.