Inflação: por que os preços sobem e como o Banco Central tenta controlá-los?

Política Monetária

Andressa Lima (LABEA/UFPA)

10/12/20264 min read

Inflação: por que os preços sobem e como o Banco Central tenta controlá-los?

Andressa Lima (LABEA/UFPA)

Inflação é o aumento generalizado dos preços de bens e serviços ao longo do tempo. Quando ela sobe, o dinheiro perde poder de compra e as famílias precisam gastar mais para adquirir os mesmos produtos. No Brasil, a principal medida de inflação é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA. Segundo o Relatório de Política Monetária do Banco Central (2026), a meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%, e seu acompanhamento é feito com base na inflação acumulada em doze meses. A taxa Selic é o principal instrumento da política monetária: o Copom define sua meta, e o Banco Central atua para que a taxa efetiva fique próxima desse valor.

Os dados mais recentes mostram que a inflação desacelerou, mas ainda permanece como um ponto de atenção. Em agosto de 2026, o IPCA acumulado em doze meses estava em 4,22%, abaixo dos 4,72% registrados em maio. Mesmo assim, o índice seguia acima da meta de 3%. O Banco Central também apontou que a inflação de serviços continuava elevada e que as expectativas para os anos seguintes permaneciam acima da meta.

Na reunião de setembro de 2026, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas manteve uma postura cautelosa. Segundo o próprio relatório, a decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta e, sem prejuízo do objetivo fundamental de estabilidade de preços, também implica suavização das flutuações da atividade e fomento do pleno emprego.

Uma das explicações mais conhecidas para a inflação está relacionada ao excesso de demanda. Quando famílias e empresas procuram comprar mais bens e serviços do que a economia consegue oferecer, os preços podem subir. Essa visão ajuda a entender por que a taxa de juros é utilizada como instrumento de controle, já que o aumento da Selic tende a desacelerar o consumo e os investimentos.

A abordagem estruturalista e pós-keynesiana amplia essa interpretação ao considerar também os custos de produção, a forma como as empresas definem seus preços e a distribuição da renda. Nessa perspectiva, a inflação não é apenas um problema de excesso de demanda, mas o resultado de um conflito distributivo: trabalhadores buscam aumentar seus salários, empresas buscam preservar ou ampliar suas margens de lucro, e essa disputa se reflete nos preços. Alencar et al. (2023) destacam que as empresas formam preços levando em conta uma margem de lucro, conhecida como mark-up, e que a inflação também pode refletir conflitos entre salários e lucros. Ou seja, a alta dos preços pode surgir de mudanças nos custos e nas relações de distribuição da renda, e não apenas de uma demanda excessiva.

Esse tipo de pressão pode ocorrer, por exemplo, quando energia, combustíveis, fertilizantes ou matérias-primas ficam mais caros. O Relatório de Política Monetária (2026) aponta que preços elevados de energia e insumos, além de problemas nas cadeias globais de suprimentos e eventos climáticos adversos, podem contribuir para pressões inflacionárias. O petróleo é um exemplo importante desse mecanismo: um aumento em seu preço afeta a inflação de forma direta (combustíveis) e indireta (custos ao longo das cadeias produtivas). Isso mostra que parte da inflação pode ter origem em choques de oferta e custos, e não apenas no comportamento da demanda.

Além dos custos e dos choques de oferta, outro elemento importante na discussão sobre inflação são as expectativas. Alencar et al. (2024) explicam que, na abordagem mais tradicional, as expectativas sobre a inflação futura são consideradas relevantes para a dinâmica dos preços. Por isso, os bancos centrais acompanham se essas expectativas estão próximas da meta e podem utilizar a taxa de juros para tentar mantê-las ancoradas. Os autores também mostram que essa relação é objeto de debate, já que os reajustes de preços podem estar mais diretamente associados às mudanças nos custos efetivamente enfrentados pelas empresas do que às expectativas sobre a inflação futura.

Compreender a inflação exige analisar diferentes fatores que podem estar por trás da alta dos preços. A Selic continua sendo um instrumento central da política monetária, mas a perspectiva pós-keynesiana amplia essa discussão ao considerar também custos, margens de lucro, salários, choques de oferta e expectativas. Essa abordagem também destaca que as decisões de política monetária podem ter efeitos sobre a atividade econômica, o emprego e a distribuição da renda. Por isso, identificar a origem da inflação é importante para compreender os efeitos e os limites das medidas adotadas para combatê-la.

Referências

ALENCAR, Douglas Alcântara; LIMA, Joás; LUZ, Emanoelle; PEREIRA, Wallace. A Regra de Taylor estruturalista aplicada à economia brasileira entre 2003 e 2015. Revista de Economia Mackenzie, São Paulo, v. 20, n. 2, p. 92-116, 2023. DOI: 10.5935/1808-2785/rem.v20n2p.92-116.

ALENCAR, Douglas Alcântara; PEREIRA, Wallace Marcelino; LIMA, Andressa; CALDAS, Lucas. Monetary policy and inflation expectations in Brazil: from 2005 to 2022. Journal of Business and Economic Studies, v. 28, n. 2, p. 1-17, 2024.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Ata da 281ª Reunião do Comitê de Política Monetária — Copom. Brasília, 15 e 16 set. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária. Brasília, v. 2, n. 3, set. 2026.