Do Pará para o mundo, o minério segue seu caminho; mas qual caminho segue a riqueza que ele produz?

Política comercial

Kevin Fernandes (LABEA/UFPA)

10/19/20262 min read

No centro das capacidades produtivas, podemos conceituar a riqueza natural como a disponibilidade de recursos provenientes da natureza que assumem relevância econômica, social e estratégica. O modus operandi adotado no aproveitamento desses recursos produz diferentes possibilidades de utilização e transformação dessa riqueza, conforme as condições históricas, tecnológicas e produtivas de cada época.

Utilizando o periscópio desenvolvimentista, a hipótese da maldição dos recursos naturais nos serve como ponto de partida para a análise que se segue. Conceitualmente, países ricos em recursos naturais detêm uma vantagem potencial em termos de disponibilidade de matérias-primas e geração de receitas. Essa abundância, por si só, não assegura maiores níveis de crescimento econômico ou desenvolvimento social. No caso brasileiro, a expressiva disponibilidade de recursos naturais suscita questionamentos sobre como essas riquezas têm sido aproveitadas e quais resultados produzem para a economia e para a população.

No caso paraense, essa discussão ganha contornos particulares diante da expressiva participação da atividade mineral na economia estadual. Segundo dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), os produtos minerais representaram, em média, 72% da pauta de exportações do Pará entre 2011 e 2023. Em 2023, especificamente, o minério de ferro respondeu por 82,6% das exportações da indústria extrativa estadual.

A dimensão dessa atividade também pode ser observada na produção mineral. Em 2023, o Pará produziu aproximadamente 302,9 milhões de toneladas de minérios, equivalentes a 17,7% da produção nacional, mantendo-se como o segundo maior produtor do país.

Entretanto, a dimensão econômica da mineração não deve nos fazer esquecer dos custos que essa atividade pode impor à sociedade. A memória de Mariana, em Minas Gerais, permanece como um dos episódios mais dolorosos da história recente da mineração brasileira. Em 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão provocou a morte de 19 pessoas e atingiu comunidades, rios e ecossistemas ao longo de centenas de quilômetros.

Recordar Mariana, nesse contexto, não significa equiparar realidades distintas, mas reconhecer que a atividade mineral não pode ser compreendida apenas pela quantidade produzida ou pelo valor comercializado.

Há consequências que ultrapassam os indicadores econômicos e permanecem na memória das populações atingidas. Para o Pará, onde a mineração ocupa posição expressiva na economia, essa reflexão também nos convida a pensar sobre a responsabilidade envolvida no aproveitamento de tamanha riqueza natural.

Em memória de todos aqueles que se foram.

5 de novembro de 2015.

Referências Bibliográficas

FAPESPA — FUNDAÇÃO AMAZÔNIA DE AMPARO A ESTUDOS E PESQUISAS. Boletim da mineração paraense 2024. Belém: Fapespa, 2024. Disponível em: https://www.fapespa.pa.gov.br/wp-content/uploads/2024/08/Boletim-da-Mineracao-Paraense.2024.Publicacao.pdf. Acesso em: 19 out. 2026.

IBAMA — INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS. Rompimento da barragem de Fundão: documentos relacionados ao desastre da Samarco em Mariana/MG. Brasília, DF, 16 mar. 2016. Atualizado em: 28 set. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/notas/2020/rompimento-da-barragem-de-fundao-documentos-relacionados-ao-desastre-da-samarco-em-mariana-mg. Acesso em: 19 out. 2026.

PAMPLONA, João Batista; CACCIAMALI, Maria Cristina. A maldição dos recursos naturais: atualizando, organizando e interpretando o debate. Economia e Sociedade, Campinas, v. 27, n. 1, p. 129–159, jan./abr. 2018. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-3533.2017v27n1art5.