Como o Crédito Afeta a Economia Real?
Política Monetária
Erick Fragata Santos Silva (LABEA\UFPA)
10/5/20263 min read
Como o Crédito Afeta a Economia Real?
Erick Fragata Santos Silva (LABEA\UFPA)
A relação entre crédito e economia tem sido objeto de estudo em diferentes escolas do pensamento econômico. A depender da perspectiva teórica adotada, há diferentes concepções sobre como essa relação se estabelece e quais mecanismos explicam seus efeitos. Nas abordagens pós-keynesianas, especialmente nas vertentes associadas à endogeneidade da moeda, o crédito bancário ocupa papel central na determinação da oferta monetária, sendo analisado em relação às necessidades de financiamento da atividade econômica. Moore (1988, 1989), por exemplo, desenvolve a interpretação da moeda e do crédito como endógenos ao funcionamento do sistema bancário. Em determinadas abordagens marxistas, o crédito é analisado em sua relação com a reprodução e a acumulação de capital. Já a tradição estruturalista latino-americana é possível observar ênfases as características estruturais das economias periféricas.
Em outras vertentes da economia, o crédito também é analisado a partir de mecanismos distintos. Na literatura sobre intermediação financeira, associada à tradição neoclássica, os intermediários e contratos financeiros são estudados, entre outros aspectos, a partir de problemas de informação, monitoramento e incentivos, que afetam a alocação de recursos entre poupadores e tomadores. Diamond (1984) desenvolve uma teoria da intermediação financeira baseada nos custos de monitoramento e nos problemas de informação entre credores e tomadores, enquanto Stiglitz e Weiss (1981) demonstram como a informação imperfeita pode produzir racionamento de crédito. Na tradição monetarista, a relação entre moeda, nível de preços e atividade econômica ocupa posição importante na análise monetária. A obra denominada A Monetary History of the United States, de Friedman e Schwartz (1963), constitui uma referência marcante dessa tradição, se ocupando em apresentar evidências históricas para a análise quantitativa da moeda e de seus efeitos sobre a atividade econômica. Essas perspectivas não são equivalentes entre si e não atribuem necessariamente ao crédito o mesmo mecanismo de transmissão sobre a economia real.
Além dessas tradições, existe uma literatura que examina diretamente os mecanismos pelos quais as condições de crédito podem afetar a atividade econômica. Bernanke e Blinder (1988) incorporam o crédito à análise da demanda agregada e mostram, em seu modelo, que choques de oferta e demanda de crédito podem produzir efeitos independentes sobre a demanda agregada. Posteriormente, Bernanke e Gertler (1995) desenvolvem a abordagem do canal de crédito da transmissão da política monetária, destacando os canais de balanço patrimonial e de empréstimos bancários e o papel das imperfeições informacionais na ampliação dos efeitos da política monetária sobre a economia real. A literatura sobre desenvolvimento financeiro também investiga a relação entre financiamento, acumulação de capital e crescimento econômico; King e Levine (1993) encontram evidências internacionais com a hipótese de que o desenvolvimento financeiro pode estar associado a elementos como crescimento e eficiência econômica.
Essa breve ilustração sobre a diversidade de interpretações indica que a relação entre crédito e economia real é compreendida por várias frentes. Os efeitos do crédito podem depender da forma como diferentes perspectivas concebem a moeda, o sistema bancário, a intermediação financeira, a estrutura produtiva, a posição econômica, a acumulação de capital e as instituições. Outro ponto importante é que a depender das características do contexto econômico, seja pela posição ocupada na economia da estrutura internacional, a composição produtiva, as instituições financeiras e o período histórico analisado, podem influenciar os mecanismos por meio dos quais o crédito se relaciona com a atividade econômica. A existência de diferentes mecanismos explicativos, leva a uma necessidade de examinar as condições de alcance do poder de explicação do fenômeno econômico.
Desse modo, a questão sobre como o crédito afeta a economia real, em síntese envolve saber pelo menos, qual a escola de pensamento econômico está ofertando a análise, o contexto, a posição ocupada na estrutura econômica, os limites de cada perspectiva teórica, as circunstâncias em que se manifestam. Torna-se, portanto, relevante investigar como diferentes abordagens analisam a relação entre crédito e economia real, identificando seus pontos de convergência, divergências e limitações explicativas.
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