BNDES Mais Inovação: inovação, indústria e o desafio de transformar a estrutura produtiva brasileira
Política industrial
Adriel Nunes (LABEA/UFPA)
10/9/20265 min read
BNDES Mais Inovação: inovação, indústria e o desafio de transformar a estrutura produtiva brasileira
Adriel Nunes (LABEA/UFPA)
A inovação não se limita à criação de novas tecnologias ou produtos. Em uma economia em desenvolvimento, ela também desempenha um papel fundamental na transformação da estrutura produtiva, no aumento da produtividade e na geração de atividades econômicas de maior valor agregado. É nesse contexto que se insere o programa BNDES Mais Inovação, iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinada a apoiar, por meio de financiamento, investimentos em inovação e digitalização de empresas de diferentes portes.
O programa tem como objetivo ampliar o acesso ao crédito para diferentes modalidades de investimento voltadas à inovação. Entre as possibilidades de financiamento estão as despesas com pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) alinhadas às diretrizes da Nova Indústria Brasil (NIB) e às suas missões, incluindo a implantação e a expansão de centros de pesquisa e desenvolvimento. Dessa forma, a iniciativa vai além do financiamento para a aquisição de equipamentos, contribuindo também para o fortalecimento e a construção de capacidades tecnológicas no interior das próprias empresas.
Essa abrangência é relevante porque a inovação não ocorre de forma isolada. Ela depende da capacidade das empresas de produzir e incorporar conhecimento, absorver novas tecnologias, qualificar sua força de trabalho e estabelecer conexões com outras empresas e instituições. Nesse sentido, o BNDES Mais Inovação pode ser compreendido como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento das capacidades tecnológicas nacionais, contribuindo para a formação de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento e à difusão da inovação.
Essa questão já estava presente na análise de Luciano Coutinho sobre as economias de industrialização tardia. Ao examinar o caso brasileiro, Coutinho (1997) destacou a fragilidade tecnológica da indústria nacional e a necessidade de políticas voltadas ao fortalecimento da capacidade de inovação e da competitividade tecnológica. Essa perspectiva permanece atual, uma vez que o simples acesso às tecnologias desenvolvidas internacionalmente não é suficiente para promover o desenvolvimento tecnológico. É necessário criar condições para que as empresas nacionais sejam capazes não apenas de incorporar e adaptar essas tecnologias às suas necessidades, mas também de desenvolver novas soluções e ampliar sua capacidade de gerar conhecimento.
É nesse contexto que o financiamento público pode assumir uma função estratégica. Projetos de inovação frequentemente envolvem elevados custos iniciais, riscos tecnológicos e retornos que se materializam apenas no longo prazo. Nesse cenário, o crédito direcionado pode contribuir para reduzir essas barreiras e estimular investimentos que, sob uma perspectiva estritamente privada, poderiam ser considerados excessivamente arriscados ou apresentar retorno insuficiente para justificar sua realização.
A perspectiva de Kaldor (1961) também contribui para compreender a importância desse processo. Em sua abordagem sobre o crescimento econômico, o dinamismo produtivo está relacionado à expansão da produção, ao progresso técnico e aos ganhos de produtividade. Nesse contexto, a indústria desempenha um papel relevante em razão da presença de retornos crescentes, processos de aprendizado e efeitos de encadeamento sobre os demais setores da economia. Assim, o fortalecimento da capacidade inovadora da indústria não beneficia apenas as empresas diretamente financiadas, mas pode também produzir efeitos sobre fornecedores, serviços especializados, emprego, produtividade e demanda por novas tecnologias.
Essa dimensão está presente no próprio desenho do BNDES Mais Inovação. O programa não se restringe ao financiamento para a aquisição de máquinas e equipamentos, abrangendo também serviços tecnológicos, consultorias, softwares, capacitação, centros de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e projetos de transformação digital. Essa abrangência é particularmente relevante em uma economia na qual a atividade industrial depende, de forma crescente, de conhecimentos e competências associados à tecnologia da informação, à engenharia, à análise de dados, à pesquisa e desenvolvimento e a outros serviços especializados.
O programa também está articulado à Nova Indústria Brasil (NIB) e às suas missões, indicando que o financiamento à inovação faz parte de uma estratégia mais ampla de transformação produtiva. Em 2025, essa orientação ganhou dimensão concreta: segundo o BNDES, foram aprovados R$ 16,7 bilhões para inovação, o maior valor nominal da série histórica do Banco, sendo R$ 14,8 bilhões provenientes do BNDES Mais Inovação.
Entretanto, o êxito de uma política dessa natureza não deve ser avaliado apenas pelo volume de crédito concedido. A questão central é verificar em que medida esses recursos contribuem efetivamente para transformar a estrutura produtiva brasileira. Isso implica analisar se os financiamentos estão ampliando a capacidade tecnológica das empresas, estimulando atividades de maior valor agregado, fortalecendo as cadeias produtivas nacionais e criando condições para a obtenção de ganhos sustentados de produtividade.
O desafio brasileiro, portanto, vai além da simples oferta de financiamento para a inovação. É necessário construir um ambiente no qual indústria, serviços tecnológicos, pesquisa e desenvolvimento e investimento estejam articulados de forma a ampliar as capacidades produtivas e tecnológicas do país. Nesse sentido, o BNDES Mais Inovação representa um avanço ao integrar diferentes frentes de apoio, como inovação, digitalização, indústria 4.0 e infraestrutura de pesquisa.
Em última instância, a relevância do programa está em recolocar a política industrial no centro do debate sobre o desenvolvimento econômico. Para um país como o Brasil, que ainda enfrenta desafios relacionados à capacitação tecnológica e à transformação de sua estrutura produtiva, ampliar a capacidade de inovar significa também fortalecer as condições para um crescimento sustentado. O BNDES Mais Inovação, embora não seja capaz de solucionar isoladamente esses desafios, pode desempenhar um papel relevante ao aproximar financiamento, inovação e desenvolvimento industrial. Afinal, o desenvolvimento econômico não depende apenas da expansão da produção, mas também da capacidade de produzir com maior sofisticação tecnológica, elevar a produtividade e ampliar a geração de valor no próprio país.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Desempenho operacional do BNDES em 2025. Blog do Desenvolvimento, 11 maio 2026. Atualizado em 20 ago. 2026. Disponível em: https://blogdodesenvolvimento.bndes.gov.br/serie/estudos-especiais/pDesempenho-operacional-do-BNDES-em-2025-p/. Acesso em: 8 out. 2026.
BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Programa BNDES Mais Inovação: crédito para empresas de todos os portes investirem em inovação e digitalização. Rio de Janeiro: BNDES, nov. 2025. Disponível em: https://www.bndes.gov.br. Acesso em: 8 out. 2026.
COUTINHO, Luciano. Investimento, inovação e crescimento: a emergência de uma nova agenda. In: FERRARI, M.; ERBER, F.; LAPLANE, M. (Orgs.). O Futuro da Indústria no Brasil: Desempenho Recente e Perspectivas. Campinas: Papirus, 1997. p. 113-146.
KALDOR, N. Capital accumulation and economic growth. In: LUTZ, F. A., HAGUE, D. C. (Ed.). The theory of capital accumulation. London: Macmillan, 1961.
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